segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

CESARIANA aumenta risco de ALERGIAS, ENFERMIDADES AUTOIMUNES, DOENÇA CELÍACA...



Prof. Marcus Renato de Carvalho

                                            A colonização do recém-nascido tem como fonte natural a microbiota intestinal materna. O parto normal promove o estabelecimento de bactérias benéficas na passagem pelo canal vaginal, essa transferência natural da mãe para o recém-nascido está comprometida durante a cirurgia cesariana conforme conclui a pesquisa Cesarean versus vaginal delivery: Long-term infant outcomes and the hygiene hypothesis (1).

Flora Intestinal
Flora intestinal é o nome popular dado à microbiota intestinal, que é o grupo de micro-organismos que habitam o intestino. A microbiota intestinal começa a se formar no canal de parto e acompanha o ser humano pelo resto da vida. Essas bactérias participam ativamente na manutenção da saúde, uma vez que ajudam em várias funções do organismo, como melhora da digestão de nutrientes e estimulação do sistema imunológico.

Temos mais bactérias do que células humanas no nosso corpo
Existem mais de 100 trilhões de micróbios vivendo no intestino, o que supera o número de 10 trilhões de células do corpo humano. A grande maioria dessas bactérias fica no intestino grosso e podem ser nocivas ou benéficas para o organismo. As principais famílias de micro-organismos que habitam o intestino são os Lactobacillus e as Bifidobactérias, conhecidas por serem benéficas para a saúde intestinal.
Manter uma microbiota intestinal saudável é de extrema importância para deixar o organismo em bom funcionamento, pois apresenta funções essenciais para a saúde do corpo, tais como:
  • PROTEÇÃO: resistência ao aumento de bactérias nocivas
  • IMUNIDADE: promove resposta imunológica equilibrada
  • NUTRIÇÃO: produção de vitaminas K e do Complexo B e de nutrientes energéticos para a ação intestinal saudável

BACTÉRIAS do BEM protegem a CRIANÇA
 Antes do nascimento, intra-útero, o feto encontra perfeitas condições para o seu desenvolvimento com uma dieta adequada, uma temperatura perfeita, um ambiente livre de patógenos e um mecanismo de tolerância imunológica que o impede de ser rejeitado pelo organismo materno (2).
Logo após o nascimento, o trato gastrointestinal que é estéril no feto normal, passa a ter suas superfícies e mucosas colonizadas rapidamente por micro-organismos e, antes mesmo de realizar sua primeira respiração, esta criança já está sendo “contaminada”, principalmente por bactérias aeróbias (que precisam de oxigênio para sua respiração) (2).
Mais tarde, à medida que o oxigênio vai sendo consumido, prevalecem bactérias anaeróbias, como as bifidobactérias, bacteroides e o Clostridium (3), mas as bactérias benéficas como lactobacilos e bifidobactérias são normalmente as primeiras a colonizar o trato gastrointestinal (4).
Este processo de colonização varia de acordo com diversos fatores associados à mãe e ao ambiente, como o tipo de parto, a amamentação ou a exposição a antígenos, promovendo um desenvolvimento gradual da microbiota intestinal que estará completamente estabelecida aproximadamente aos 3 anos de vida (5).
A flora intestinal materna coloniza o RN durante o parto normal estabelecendo que bactérias benéficas se instalem e se multipliquem. Essa transferência materno-infantil está comprometida durante a cesárea (1).  Quando não existe essa passagem pelo canal vaginal, há aumento do risco de alergias, doenças autoimunes, doença celíaca e doença inflamatória intestinal (6). A pequena distância entre o ânus e a vagina, de 2-4 cm, dependendo da mulher, possibilita que a microbiota intestinal materna “contamine” beneficamente o RN que nasce de parto normal.

Flora vaginal
No interior da vagina, existe uma flora bacteriana constituída por vários microrganismos inofensivos, que proporcionam um ambiente desfavorável ao desenvolvimento de microrganismos patogênicos.  O conhecimento sobre o ecossistema vaginal se amplificou com os novos métodos não cultiváveis de identificação microbiana - amplificação de genes e clonagem, revelando centenas de espécies deLactobacillus que podem compor a flora vaginal e a interação desta com os mecanismos locais de imunidade inata e adquirida. Linhares e at. afirmam que “na maioria das mulheres predominam na vagina uma ou mais espécies de Lactobacillus: L. crispatus, . L. inners e L gasseri. Entretanto, em outras mulheres aparentemente saudáveis pode haver deficiência ou mesmo ausência de Lactobacillus, que são substituídos por outras bactérias produtoras de ácido lático: espécies de Atopobium, Megasphaera e/ou Leptotrichia. A infecção e/ou a proliferação de bactérias patogênicas na vagina são suprimidas pela produção de ácido lático, por produtos gerados pelas bactérias e pela atividade local das imunidades inata e adquirida. As células epiteliais vaginais produzem diversos componentes com atividade antimicrobiana. Tais células ainda possuem receptores de membrana (“Toll-like receptors”) que reconhecem padrões moleculares associados aos patógenos. O reconhecimento leva à produção de citocinas pro inflamatórias e à estimulação da imunidade antígeno específica. A produção de anticorpos IgG e IgA também pode ser iniciada na endocérvice e na vagina em resposta à infecção. Conclui-se que a composição da flora vaginal e os mecanismos de imunidade representam importantes mecanismos de defesa. Os critérios de “flora normal” e “flora anormal” devem ser revistos...(7).”
Em conclusão, temos mais motivos para não permitir que o número de cirurgias cesarianas desnecessárias continue crescendo e contribuindo para o aumento de doenças, alergias e distúrbios da imunidade devido a não formação de uma microbiota saudável e protetora.
PS: Este artigo foi inspirado pelo filme MICROBIRTH lançado no Rio de Janeiro em pré-estreia no dia 20 de setembro de 2014.

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